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quinta-feira, 24 de maio de 2012

O dia em que ensinei um velho a andar de bicicleta sem as mãos

Como de costume, alguns dias do mês eu ia na casa do meu primo, pra jogar alguns jogos e jogar papo fora. A casa dele não era muito longe da minha, não dava nem 5 minutos de bicicleta. Teclado e mouse debaixo do braço e só. O tempo voava quando estava lá. Uma, duas, três e às vezes quando me dava conta já estava de noite.
Foi ontem, eu já voltava da casa do meu primo, tempo fechado, um vento frio cortante e uma garoa que já durava o dia inteiro. Eram 4 ou 5 horas da tarde, não me lembro ao certo. Teclado dentro de uma sacola numa mão e mouse na outra, dentro do bolso da blusa. Pedalava tranquilamente até que resolvo tirar as mãos do guidão, aquilo fazia eu me sentir livre. Cruzei três quarteirões sem parar de pedalar, em cidade pequena quase não existe trânsito. Até que cheguei numa pracinha, perto de casa já, e ouvi uma voz meio rouca sussurrar:

- Ei, jovem!

Eu olhei para os lados e só vi um senhor de idade, de uns 50/60 anos, que seus cabelos grisalhos o condenavam. Ele olhava pra mim, maravilhado de como eu andava de bicicleta. Olhei para o lado oposto e indiquei com o indicador numa retórica "é comigo?" e ele respondeu balançando a cabeça positivamente.

- Venha cá - disse, fazendo gestos com a mão para eu me aproximar - você poderia me ensinar como você faz isso?

Eu, meio que sem entender sobre o que ele me perguntava, não disse nada, e ele, percebendo minha impaciência, acrescentou:

- Isso de andar sem as mãos! - exclamou sorrindo fazendo gestos.

Foi então que eu entendi sobre o que ele estava falando. Ele parecia uma pessoa saudável, bem cuidada e não aparentava ter a idade que tinha.

- Éé... você consegue, pelo menos, ANDAR de bicicleta? - eu disse apontando para a bicicleta dele, novinha, limpa que até brilhava mesmo sem sol.
- Bom, eu aprendi semana passada, mas já treinei bastante. Resolvi correr atrás do que eu não aproveitei quando era criança...

Aquilo chegou até a me tocar um pouco, e eu resolvi ensiná-lo.

- É bem simples, olha, você senta bem atrás do selim, assim, e com os joelhos e a parte de dentro das coxas você controla o balanço da bicicleta. Recomendo que você vá devagar no início e vá aumentando a velocidade aos poucos, aprenda primeiro a andar em linha reta e depois que já tiver acostumado, tente fazer curvas. Como a rua aqui não é tão esburacada, você pode tentar sem ter medo...
- Espera, você fala muito rápido! - disse ele, dando uma gargalhada. - Aqui, subo na bicicleta... agora eu pego uma velocidade e controlo a bicicleta com a parte de dentro da coxa, é isso?
- Isso mesmo, mas não tente levantar a mão muito longe do guidão, para que, se você se desequilibrar, possa se segurar...
- Ok.

Ele até que foi bem na primeira vez, mas quase caiu.

- É assim mesmo, o importante é você insistir. - disse enquanto ajudava ele a se recompor.
- Certo, mais uma vez...

Na segunda ele já praticamente conseguiu, deve ter andado uns 2/3 metros sem as mãos.

- Viu como é fácil? Quando você tiver bastante controle sobre a bicicleta apenas se equilibrando, fica mais fácil depois, quando você for pedalar.
- Nossa! Consegui! - comemorava como se tivesse alcançado algum objetivo. - Muito obrigado, jovem!
- Que nada...
- Agora deixa eu ir que eu ainda tenho várias coisas para correr atrás! - disse dando uma risada.

Nos despedimos e eu nem mesmo soube como era seu nome, só sei que eu senti uma sensação de satisfação. Já tinha até perdido a hora para o curso que eu tinha, mas isso não importa, porque hoje o aprendiz ensinou o mestre. Não importava mesmo, porque hoje foi o dia em que ensinei um velho a andar de bicicleta sem as mãos.